As Primeiras Coisas

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“As Primeiras Coisas”
Bruno Vieira do Amaral
Quetzal

Hélder Beja

Há uma descrição em As Primeiras Coisas, quando uma das personagens, em Angola, vê passar dois homens. Um exercita-se. Outro vai de arma em punho, a proteger o corredor. “O contraste entre o vigor musculado do moço e o dever suado do homem que o segue, os dois em corridas tão próximas e tão distantes, é matéria de sonhos”. Transportemos esta imagem para a carreira literária. Bruno Vieira do Amaral é um jovem atleta da coisa escrita, tendo neste o seu primeiro romance. É o contraste entre o vigor que demonstra, a capacidade de avançar sem cair, que se acentua a cada página face ao dever suado de outros corredores que depois de um, dois, três livros continuam à procura da meta. São corridas tão próximas e tão distantes, e são também matéria de sonhos – porque não seria possível de outro modo escrever assim.

O livro é um compêndio de lugares e personagens de um espaço imaginário na margem sul do Tejo. Um lugar chamado Bairro Amélia que, não existindo, foi beber ao Vale da Amoreira, onde medrou Vieira do Amaral. Bruno é também o nome do narrador, homem a entrar na meia idade e que levanta bem alto o estandarte da derrota. O narrador fala-nos desse regresso ao bairro num prólogo que agarra o restante do livro, esse sim um compêndio alfabético de coisas, lugares, pessoas e pessoas que são coisas.

Uma certa desolação atravessa a narrativa, mas bem sabemos como há potencial para o humor na miséria. Entre a desaparecida Vera, a morte de Joãozinho Treme-treme, as façanhas de Lito Capone, um puto de nome Diógenes que “vai ser burro até à cova”, retornados que só têm “a roupa do corpo”, putas que não têm biografia, um músico analfabeto que dá autógrafos – entre tudo isto Vieira do Amaral nunca perde o pé. É um nadador exímio por entre personagens que se afogam.

Num dos melhores livros de estreia dos últimos anos, o autor faz-nos rir a ler, coisa hoje tão rara. Oferece-nos um realismo que se não é mágico anda lá perto e que bebe o sumo daquelas vidas vencidas do bairro, “vidas que não se mexem”.

Nos bastidores com Roque Choi

Capa“Roque Choi: um homem, dois sistemas (apontamentos para uma biografia)”
Cecília Jorge e Rogério Beltrão Coelho
Livros do Oriente
Novembro 2015     

Sónia Nunes

Macau, na segunda metade do século XX, é um manual de sobrevivência por escrever. A história de como o território conseguiu manter a ‘maneira de viver’ é incrível e discreta, à imagem do consenso que emergiu nas situações de crise e da reserva dos seus negociadores. Qualquer informação sobre este teatro de sombras conta – publicar uma biografia, por mais incompleta que seja, de um dos portadores destes segredos da coexistência é prestar serviço público e este livro é uma demonstração desse esforço para que os lugares da memória, ainda que reservados, não deixem de ser frequentados. A tentação é abri-lo como se fosse uma caixa de segredos. Não é. Esta é apenas a história de vida possível do ‘oficial de ligação’ entre a elite chinesa e a administração portuguesa, que nasceu no Beco do Mistério para ser sócio e homem de confiança do enigmático Pedro Lobo e do líder do ‘governo sombra’ Ho Yin. Roque Choi tudo viu, ouviu e mediou sobre o comércio do ouro, o jogo, o “milagre dos homens” que foi a paz entre portugueses, comunistas e nacionalistas na década de 1960, e o pós-25 Abril em Macau. Mas guardou estes segredos com a “segurança de um cofre-forte”.

A síntese conseguida com o jogo de palavras “um homem, dois sistemas” deve-se ao arquitecto Nuno Jorge, que se destaca ainda por, no remate do livro, fazer referência ao que está, até aqui, subentendido: “A determinada altura e da forma mais discreta que se possa imaginar”, Roque Choi tornou-se “num dos homens mais ricos de Macau”. O perfil capitalista é indispensável no paralelismo feito com o princípio “um país, dois sistemas”.

Este é sobretudo um livro contra o esquecimento. Não só de Roque Choi mas de agentes determinantes da história de Macau sobre os quais pouco se sabe, o que valida as profusas anotações e notas de rodapé, bem como a entrevista de vida que José Pedro Castanheira fez a Roque Choi em 1999, publicada aqui pela primeira vez. A atenção do leitor é desviada para novas informações que, face à falta de dados não institucionais, nem sempre justificam uma interrupção da leitura. A preocupação parece ter sido a de fornecer o máximo de informação enquanto ainda está disponível. A recusa de fontes oficiais em ceder documentação não auguram nada de bom para quem tem esta ideia de que o passado de Macau tem de ser escrito.